sexta-feira, abril 17, 2009

terça-feira, março 18, 2008

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

do lado de dentro do filme

Se eu passar e ver um incêndio (ou mesmo ver o mesmo na televisão, o que seria ligeiramente mais provável) e descobrir que tem um casal no último andar (tipo o 6º, nada muito exagerado) eu diria, ou gritaria, ou pensaria (o que é ligeiramente mais provável) “lança a criança para o bombeiro!”, como aliás aconteceu (e foi noticiado, por isso que eu sei que aconteceu, não foi algo perto da minha casa) dia desses (e vejam vocês, foi noticiado - a coisa é rara).

Eu teria feito o mesmo.

Na teoria, mas se eu tivesse lá ia ser ruim de eu defenestrar um filho. Imagina olhar a carinha dele. Talvez pulasse eu e quando chegasse lá embaixo tocava ele para cima p/ algum bombeiro pegar, ou mirava um bombeiro especificamente. Ou o seguraria para cima durante a queda a fim de amortecer durante o choque.

A paixão da vida de alguém (conhecido como amor da sua vida) casar-se-á com outro. O outro, ou seja, o que não é o outro, o original, o verdadeiro amor, entra na igreja e “comenta” de modo muito influente os dizeres “se alguém tiver alguma coisa contra esse matrimônio que fala agora ou cala-se para sempre”.
Você, assistindo, fala “é isso!” (ou “yes”, se você for americano, ou metido a americano, ou até mesmo idiota).

Eu teria feito o mesmo (se o roteiro da novela me orientasse a isso).

Pois imagine a mesma situação. Na vida real, esqueci de dizer. É brabo de alguém fazer isso, deixar chegar a esse ponto e esquecer de desistir no último minuto.
Coragem é (inclusive eu farei uma série com isso, do tipo das figurinhas “amar é”...) esquecer de desistir.

Coragem é cumprir um certo previsível, um previsível simples, até óbvio.
A coragem é óbvia, mas não é fácil.
Pode pôr a música-tema da abertura de Irmãos Coragem (irmãos, é preciso coragem...) na vitrola que lá vai mais um exemplo, aliás, um lema para mim (sim, senhoras e senhores, eis uma máxima minha):

coragem é viver como se estivesse no lado de dentro do filme.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

saudade que se sente de tudo que ainda não se viu

O Patropi diz para o profº Raimundo “eu vou começar a piada pelo fim”. Ele –menininho, cabeçudinho... joelhinho grosso, barrigudinho, perna fina... quem? Quem? Ele. Raimundo Nonato! – concorda, ao que se segue um silêncio. Então o Patropi (que era também o Fofão) diz “estou esperando o sr. rir, pois a piada é muito engraçada”.

Imagine (geralmente estas 7 letras predispõe orientações substancialmente mais amigáveis, tais como all the people living life in peace...) perder tudo. Imagine não lembrar de nada, nem de ninguém. Perder tudo: as anotações, as memórias, os amores e, por fim, tudo mesmo, o tudo propriamente dito.

Nós (não os homens, nem os que mantêm blogs, tampouco os brasileiros, a nós todos eu me refiro, nós, os seres humanos, portanto) temos esta ciência, de que tudo acaba. Essa noção às vezes emerge do conjunto de coisas que soubemos o tempo todo e não pensamos muito ou o processo contrário, a gente submerge nela.

Como nos sonhos quando passados são agregados à nossa memória onírica, a qual toma status de memória real durante o sonho, pois enquanto sonhamos o sonho é nossa realidade, de tal forma que é como se aquele passado estivesse sempre ali, como se realmente tivéssemos vivido aquilo e isso nos é abruptamente tomado quando despertamos (quando é pesadelo é bom, não? “Ai, que alívio...”).

Saudade de tudo.

Pode parecer um post adolescente parafrasear no título mais ou menos Renato Manfredini Júnior, mas a Legião é realmente emocionante e Índios é realmente muito bonita. Mas não é disso que falarei.

Há a falta que fará tudo o que não será realizado (quantos aí não vão ser jogadores de futebol, quantas não vão ser bailarinas, ou quantos não vão ser cirurgiões renomados ou mesmo renomados, como queriam ser quando ainda não tinham a oportunidade de ser?). E o pesinho de chumbo de que o que se poderia ter sido feito, poder-se-ia ter feito?

Saudades. Só que em vez da foto do ausente na mão, a ausência é do que não se fez e não há mais tempo a fazer. É uma ausência desde sempre.

É a presença da ausência e não a ausência da presença.

Eu sonhei assim: eu estava na minha casa, no meu quarto, eu era eu, ou seja, tudo como é, daí eu achei uma gaveta cheia de objetos guardados, coisas pessoais, cartas, lenços, fotos, coisas escritas e desenhos meus, e aquilo era (no sonho, e na hora, portanto) parte de mim. Quando despertei, dei-me conta de que aquilo tudo não existia.

Uma gaveta vazia, que poderia ter sido enchida. E há uma dessas na gente, limpinha. Ou várias, tipo um arquivo, com chaves e tudo, organizado, firme, com fichas para separar as coisas e... vazio.

Poderia ser remorso ou angústia, mas não. É saudade. A saudade das coisas que acabam porque acabam, ou que não foram porque não foram. Doem mais como barco que descrevendo um arco discretamente evita o cais do que uma fisgada no membro perdido, esta lembrada por Layla Lauar ao mencionar a belíssima composição de seu admirado Francisco Buarque. Não é uma saudade urgente. Para esta, a cura talvez é o esquecimento. Para a outra, o esquecimento – a extinção – é a causa.

Saudade de nada.

Saudade do nada que não necessariamente deveria ter sido nada.

Pode ser exagero meu (exagero eu?). Até porque eu tenho saturno na casa 8, que me confere um medo das mortes, e a idéia de que as coisas acabam me angustia (eu ia escrever “podem acabar”, mas não, as coisas invariavelmente acabam).

E ainda por cima eu tenho bloqueio de elementos terra (estou no mapa astral natal ainda e não noutro tipo de mapa, como o cartográfico) e muitas posições em sagitário, que me dão uma certa síndrome de Peter Pan (mas não é nada doentio, não é síndrome de síndrome mesmo, é só um jeito de designar).

O Guga (Gustavo Kuerten, ex-número 1 do mundo, tri campeão Roland Garros etc) chorou anteontem (ou um dia antes disso), porque percebeu o fim.
Quando uma coisa acaba é como tomar um murro, mas saber que tudo acabará é como saber que é impossível vencer a briga.

Quando se faz algo e se arrepende, é como olhar para uma caixa e não gostar dela. Mas quando não se faz e se arrepende, é como olhar um monte de dinheiro que não foi usado, ou sementes não plantadas para ser mais clássico. Ou algo muito (ou mais ou menos) parecido com isso.

Mas não foi à toa que o (xará!) João Guimarães Rosa escreveu a frase a vida parece que vai, mas vem vindo e ela fora citada justamente ontem por um repórter que infelizmente não sei o nome ainda que fazia uma participação semelhante às do Arnaldo Jabor no JN só que num jornal do Sistema Brasileiro de Televisão até então inédito para mim, lá pelas tantas da noite (quiçá madrugada), justamente na hora em que eu quis dar um minuto para esta saudade toda e fui zapear a televisão na esperança da luz azul me desafogar um pouco da submersão nessa verdade. Obrigado azulada luz, bola p/ frente (luz-a-zul, notaram?).

Acabar é a arma da vida para que a vivamos verdadeiramente.

E se a vida vem vindo, não se trata de nós a deixarmos para trás, mas sim de ela nos encontrar.

sábado, janeiro 26, 2008

roupagem

A moda está sempre a descobrir (no sentido de inventar, como já havia apontado Borges, antes mesmo de eu achar que eu havia visto essa relação, e depois de a palavra ter-se desmembrado do radical primitivo comum) uma nova maneira de deixar as mulheres bonitas. Os homens também, mas falemos das mulheres, pois a palavra bonita é mais bonita que a palavra bonito.
Paralelo básico: a arte. Sempre reinventando uma maneira de aplicar suas criatividades (ao ritmo da seta de Zenão).

Sempre lirismo, sempre criatividade, porque não talento atrás de cada manifestação, por mais que se queiram isentar do artista isso as constatações pós-modernas. Nunca falta filosofia, sempre sobra volúpia.

De volta ao assunto (voltando ao assunto): elas, as que impuseram suas belezas e também as que deixaram à disposição da moda a mesma, estiveram sempre bonitas: com os cabelos curtos e calças centro-pê dos anos 80, os vestidões dos anos 50, os pêlos não tratados da idade da pedra lascada, os redtags com meias de futebol na pré-adolescência burguesa dos anos 90.

sexta-feira, outubro 12, 2007

a verdade sobre a vida e a morte

Eu vi um rato morto no chão. Um chão de concreto, a calçada, no caso, abaixo dele. Não sei exatamente quanto tempo levou para que as pessoas não percebessem mais que se tratava de um rato, entre os que não perceberam e pisaram e entre outras ações orgânicas de decomposição ordinária até que ele virasse a mancha que virou quando eu o vi. A partir de então, passou a ser pisado vulgarmente, pois estava no chão e parecia, repito, tão somente uma mancha.

Mas, por mais que as pessoas pisassem, ele jamais entrou na calçada.

Eu já fui a alguns funerais. Há neles diversas facilidades para que o corpo vá terra adentro, tal como cavar um buraco e antes de preenchê-lo adequar o corpo a uma caixa (o caixão) para que o mesmo permaneça lá "protegido".
Mas o que o pessoal (ou a maioria, pelo menos) quer, é enviar o morto (através da alma, geralmente) ao céu (ou trazer de volta o corpo, para os mais pretensiosos). Inimigos se silenciam, patrões deixam seus empregados trabalharem somente pela manhã porque alguém de proximidade não coberta por lei certamente não aparecerá mais por aí (pois se estivesse viajando o destino poderia...), inimigos, ou ao menos nem tanto para chamá-los inimigos, fofoqueiros, que sejam, silenciam-se. E põe óculos escuros.

Mas, por mais que as pessoas rezem, chorem, pensem positivo, façam minutos de silêncio, ele não sobe ao céu.

Em ambos os casos, eles diluem-se, aos poucos, por aí. Para nós os respirarmos. Tanto o rato, quanto o gato, um pum solto por um velho, o território já queimado da Atlântica, a Lady Di, os seismossauros, a moça que tocou o filho no lixo e depois se matou, o amor da vida de cada um uma hora ou outra.

mãe maldita retardada tem de morrer

Logo cedo dia desses, o apresentador dizendo que não entra na cabeça dele como uma mãe abandona o filho (evidentemente uma mãe havia abandonado um filho em circunstâncias suficientemente desumanas para virar notícia, e ele comentava a respeito).

Não é aqui querer sair defendendo toda sorte de criminosos, mas o que não entra na minha cabeça é como não entra na cabeça de alguém que qualquer coisa pode entrar na cabeça de alguém conforme as circunstâncias. Soam-me hipócritas avaliações sobre os padrões que se desviam. Não é querer me juntar ao coro dos que criticam a programação da televisão destinada ao público médio, mas que ninguém se dê a moral para atirar a primeira pedra. E mesmo a “maldade”, se alguém fosse "do mal" (dispensando "não existe bem e mal" etc) por natureza, estaria seguindo seu instinto, buscando seu prazer. Prende, pena de morte, esquarteja, lincha, o que o povo quiser; mas não acha incompreensível, que não há ação sem motivação.